Flores para Algernon
O livro "Flores para Algernon" logo me despertou o interesse ao ler uma pequena resenha, em que relata que um rapaz com QI baixo se dispõe a fazer uma cirurgia para ficar inteligente.
É uma ficção científica e ainda não comecei a ler, mas essa premissa já me fez refletir sobre muitas coisas...
E se chegarmos ao ponto de que haverá mesmo uma cirurgia que transforme todo mundo? Não haverá mais ninguém com QI baixo ou deficiência intelectual. Que ótimo!- pensaremos no primeiro momento. Mas depois nos questionaremos: até que ponto devemos interferir nos Planos de Deus? Será que uma pessoa deficiente não tem a mesma importância do que as ditas "inteligentes"?
Tive um aluno deficiente intelectual logo no início da minha carreira. Foi a criança que mais me ensinou nesta vida. Com ela aprendi a gentileza, a aproveitar cada momento...
Ele amava sair correndo da sala de aula para eu pegá-lo. Era uma espécie de pega-pega involuntário, onde eu não queria brincar e ele se divertia a valer! Ao voltar correndo pra sala de aula, ele bateu a cabeça no batente da porta e começou a chorar. Eu passei a mão na cabeça dele, tentando acalmá-lo: não foi nada... Ao retirar a mão, vi que estava cheia de sangue e me apavorei. Lá fomos nós correndo para a enfermaria do colégio e a enfermeira me deixou mais nervosa ainda ao decretar: tem que ir para o hospital levar pontos.
Imagina como foi difícil esse trajeto pra mim. O pai do menino já nos aguardava no hospital. Fiquei pensando em todas as cenas possíveis: gritos, acusações... Enquanto eu pensava nos mais horrorosos cenários, culminando em que eu mesma talvez precisasse de cuidados médicos no hospital, ele, feliz, apontava as coisas no caminho pra mim: olha um carro! Olha uma casa vermelha! Olha um menino jogando bola!
E eu, sem prestar atenção a nada disso, só passava a mão nas costas dele e dizia: hum-hum...
Ao chegarmos ao hospital, o pai nos recebeu com um sorriso e me acalmou, dizendo: conheço o moleque que eu tenho... isso não é nada, é só remendar que fica novo de novo!
Foi aí que consegui respirar. E vi o quanto o menino havia me ensinado. Perdi todos os carros, casas vermelhas e meninos jogando bola do caminho. Simplesmente porque estava perdida em meus próprios pensamentos catastróficos, que afinal nem se confirmaram.
Perdi tudo o que ele ganhou nesse caminho. Mas ganhei uma lição preciosa: a aproveitar cada passo do caminho e não ficar preocupada com o que irá acontecer depois.
E afinal, quem era o deficiente nessa história toda?
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