Passado
O tempo estava chuvoso. Ela ajustou melhor seu casaco, numa vã tentativa de se proteger contra os grossos pingos que a faziam tiritar.
Seguiu em frente na rua, sem atentar se o farol estava aberto ou fechado para os pedestres. Rua movimentada. Ouviu algumas buzinas e impropérios gritados, mas não ligou. Estava com as emoções embotadas pela notícia. Nada mais tinha importância.
De repente, estacou em frente à casinha abandonada, onde já se viam as marcas do tempo: vidros quebrados, manchas nas paredes, a placa com o número já presa apenas por um lado. Foi ali que tudo começou. Foi ali que ela se lembra de seus primeiros anos de vida.
Engasgada pela repentina emoção do passado e surpreendida por ainda ser capaz de sentir, resolveu tentar a sorte e abrir a porta para se abrigar da chuva, que piorava a cada instante.
Não se lembrava da sala ser tão pequena. Quantas vezes correu de lá pra cá e parecia quase um campo de futebol. Não era. Ela é que era pequena, com suas perninhas curtinhas, via imensidão onde só havia simplicidade.
A cozinha estava toda destruída, como se tivesse sido vítima de um terremoto. A torneira quebrada, a pia jogada no chão... Quantas coisas gostosas havia feito sua alegria naquele lugar... quantas conversas sérias ou engraçadas... quantos sermões sobre a importância de comer verduras e legumes. Mas ainda estava viva, mesmo não comendo até hoje. Infelizmente estava viva. Ainda.
Em seu quarto, mal conseguiu fazer a ligação entre o espaço vazio que via e todo o mundo imaginário com que o povoou na sua infância. No teto, ainda dava pra enxergar a marca dos adesivos de estrelas que fez seu pai colar, pra sentir que dormia ao ar livre.
Em cada lugar de seu passado, o presente estava invadindo. Ainda havia a notícia inesperada. Como lidar com ela? Não era capaz de tomar uma decisão. Não adiantava olhar para o passado e tentar decidir o futuro. O tempo estava acorrentado em seu próprio pulso. Parecia não ter para onde ir, mesmo tendo a chave de uma casa confortável em sua bolsa de marca.
(Continua amanhã)
Seguiu em frente na rua, sem atentar se o farol estava aberto ou fechado para os pedestres. Rua movimentada. Ouviu algumas buzinas e impropérios gritados, mas não ligou. Estava com as emoções embotadas pela notícia. Nada mais tinha importância.
De repente, estacou em frente à casinha abandonada, onde já se viam as marcas do tempo: vidros quebrados, manchas nas paredes, a placa com o número já presa apenas por um lado. Foi ali que tudo começou. Foi ali que ela se lembra de seus primeiros anos de vida.
Engasgada pela repentina emoção do passado e surpreendida por ainda ser capaz de sentir, resolveu tentar a sorte e abrir a porta para se abrigar da chuva, que piorava a cada instante.
Não se lembrava da sala ser tão pequena. Quantas vezes correu de lá pra cá e parecia quase um campo de futebol. Não era. Ela é que era pequena, com suas perninhas curtinhas, via imensidão onde só havia simplicidade.
A cozinha estava toda destruída, como se tivesse sido vítima de um terremoto. A torneira quebrada, a pia jogada no chão... Quantas coisas gostosas havia feito sua alegria naquele lugar... quantas conversas sérias ou engraçadas... quantos sermões sobre a importância de comer verduras e legumes. Mas ainda estava viva, mesmo não comendo até hoje. Infelizmente estava viva. Ainda.
Em seu quarto, mal conseguiu fazer a ligação entre o espaço vazio que via e todo o mundo imaginário com que o povoou na sua infância. No teto, ainda dava pra enxergar a marca dos adesivos de estrelas que fez seu pai colar, pra sentir que dormia ao ar livre.
Em cada lugar de seu passado, o presente estava invadindo. Ainda havia a notícia inesperada. Como lidar com ela? Não era capaz de tomar uma decisão. Não adiantava olhar para o passado e tentar decidir o futuro. O tempo estava acorrentado em seu próprio pulso. Parecia não ter para onde ir, mesmo tendo a chave de uma casa confortável em sua bolsa de marca.
(Continua amanhã)
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