Elevador

Você entra no elevador do prédio onde mora. Só tem vizinhos dentro. Todos limitam-se a olhar pra baixo ou para os números que vão decrescendo. Ninguém se atreve a olhar nos olhos uns dos outros.

O elevador está lotado, mas parece estar vazio. Não há calor humano, não há vozes. Só há desconforto. Todos olhando fixamente para os números, esperando ansiosamente o número mágico que os libertará daquela caixa cheia de gente.

Mas aí entra uma criança. Agora o foco está nela. Alguns sorriem sem mostrar os dentes, outros olham e sorriem mais abertamente.

A criança começa a contar o meio de uma história, como se todos soubessem o começo, que estava em sua cabecinha e, para ela, era óbvia. Todos prestam atenção, perguntam, dão risadas mais abertas. A humanidade estava  ali, finalmente. Olham entre si, cúmplices do divertido monólogo infantil.

Você sai do elevador pensando: não fomos todos crianças? Ainda não somos todos crianças? Por que não podemos também nós contarmos nossas histórias divertidas, para que os números do elevador nem sejam sentidos?

Mas o número mágico aparece. Baixamos nossas cabeças, murmuramos uma despedida rápida e seguimos nossos caminhos. Em breve, a máscara de desumanidade estará de volta em nossos rostos. Nos cobrimos com o véu da inexistência e caminhamos rumo ao nada...

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